A Conferência de Solidariedade aos Povos da África, Ásia e América Latina de 1966

A Conferência de Solidariedade aos Povos da África, Ásia e América Latina de 1966, mais conhecida como Conferência Tricontinental, continua a ser reconhecida como um dos maiores encontros de sempre do movimento mundial anti-imperialista. Mais de 500 representantes dos movimentos de libertação nacional, movimentos de guerrilha e governos independentes de cerca de 82 países reuniram-se em Havana, Cuba para discutir questões estratégicas prementes confrontando o movimento anti-imperialista na altura. Entre os delegados estiveram presentes algumas das figuras mais proeminentes do movimento anti-imperialista, incluindo Fidel Castro, Salvador Allende e Amílcar Cabral.

 

Partindo da Conferência de Bandung de 1955 e a Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD) de 1964, a Tricontinental teve como objetivo estender, para o continente americano, a solidariedade afro-asiática iniciada em Bandung. Como tal, a Tricontinental destacou-se como o culminar de um movimento não-alinhado e da construção de um projeto anti-imperialista do Terceiro Mundo. Concomitantemente, a Tricontinental constitui-se como uma rutura com esses esforços anteriores. Enquanto que Bandung foi relativamente modesta, com as diversas correntes políticas do Terceiro Mundo a reunirem-se para anunciar um programa minimalista, a Tricontinental foi declaradamente mais radical, numa tentativa explícita de alinhar o movimento anti-imperialista com um desafio mais amplo ao capitalismo. Nas palavras de Mehdi Ben Barka, líder socialista marroquino e organizador da Conferência, a Tricontinental teve como objetivo “associar as duas grandes correntes da revolução mundial: a que nasceu em 1917 com a Revolução Russa, e a que representa hoje em dia os movimentos anti-imperialistas e de libertação nacional”. Na verdade, estiveram presentes na Conferência guerrilheiros de esquerda que estavam em plena luta contra os seus próprios governos do Terceiro Mundo.

 

O 50º aniversário da Primeira Tricontinental é uma oportunidade para refletir sobre a sua importância duradoura em termos políticos, jurídicos e económicos, destacando tanto a relevância histórica e o legado intelectual e político da Conferência, como o seu papel fundamental para o projeto do Terceiro Mundo. O “tricontinentalismo” foi particularmente relevante na formação de correntes teóricas, incluindo Third World Approaches to International Law, pós-colonialismos e Marxismos do Terceiro Mundo, bem como conceptualizações de subalternidade global e anti-imperialismo e formas concretas de cooperação e solidariedade Sul-Sul.